domingo, 25 de novembro de 2012

O impossível

Consegui um emprego.

Segura essa, Jean Cocteau.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Tom antes de quebrar

Perto do final de "(500) dias com ela", o personagem principal, Tom Hansen, está no auge de sua fossa pelo seu amor não correspondido, seu trabalho sem saída e a decoração capenga de seu apartamento. Como qualquer filme sobre superação que se preze, Tom decide mudar sua vida ao som de uma música assobiável junto a uma edição veloz e acelerada. Ele altera sua decoração com uma parede "com sonhos" e planos, estuda, faz um novo currículo, larga seu vestuário usual para um terno e sai à procura de um emprego.

Lembro muito bem o quanto fiquei entusiasmado com este filme quando o vi pela primeira vez, seus bons diálogos e atuações em uma fotografia azul de verão, formando um mundo cheio de possibilidades, boa música e garotas bonitas que podem partir seu coração. Passeando pelos canais da tv dias atrás, revi o filme pela primeira vez, aos pedaços.

É terrível.

Tom quebra e desiste de basicamente tudo o que o define como pessoa, de seu penteado, roupas e profissão à sua paixão (mesmo que seja por uma garota mala) para encaixar-se em uma fôrma qualquer, em um escritório qualquer, apenas esperando o próximo desastre. Suas novas escolhas supostamente o fazem mais "maduro", "sábio" e "adulto", como se sua nova parede (de sonhos!) fosse menos capenga, o terno menos uniforme de uma classe e o novo trabalho menos sem saída - e, o que mais me incomoda, como se tudo o que ele vivia até então não fosse digno.

Ainda, o que nem "(500) dias..." e nem outros 500 filmes que usam a técnica da montagem pré-superação com música "pra cima" mostram corretamente são os momentos que acontecem antes da quebra, quando o personagem finalmente percebe sua situação e decide como mudar o seu paradigma. Não se trata de renegar o passado nem há garantias de sucesso após a quebra. Posso afirmar com propriedade que é um processo chato, longo e silencioso, sem tom nenhum além da agonia e da incerteza.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Fracassos exemplares

Miguel fracassa em ensinar calouros. Flávia fracassa em escrever um blog. Henrique fracassa em terminar o namoro. Marina fracassa em ser demitida. Bandini fracassa em conseguir um emprego.

Somos todos amigos. Qual destes fatos é de propósito?

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Não vá.

- Cara, não vá.

Depois da terceira vez que escutei isto de três pessoas diferentes, decidi que precisava mesmo ir.

Após meses sem notícias, soube que a última garota por quem senti alguma coisa estaria em determinado bar em uma sexta-feira à noite. Existiram garotas depois, mas nenhuma me fazia tão calorosamente estúpido como ela.

Fiquei surpreso quando a vi. Seus cabelos negros, que sempre me pareceram brilhantes, estavam sebosos. Antes, possuía um estilo para suas roupas entre o inesperado e o discreto, agora ela estava vestida em uma combinação infeliz de bege-cinza. E seria possível que tivesse engordado? Nunca havia notado a dobra na cintura sobre a calça. Chamar seu nariz de exótico, como eu fazia, pareceu-me uma negação da realidade – e como saía tão bem em fotos?!

Ela estava feliz com seus amigos. Conversamos brevemente, sem lembrar o passado. Teríamos mudado tanto em tão pouco tempo? Talvez seja mais assustador pensar que não mudamos em nada.

Após o choque da realidade, não resta nem a saudade de um amor.

domingo, 17 de junho de 2012

Três primárias

Marquei de sair com uma garota com convicções religiosas. Tudo decidido para um “quase-encontro” no final da tarde do dia seguinte, em um lugar relativamente neutro mas aconchegante, quando recebo uma mensagem alterando para um almoço em um restaurante conhecido dela. Aceitei. Se já estaria desrespeitando várias regras pessoais ao sair com ela, um “encontro” em pleno almoço seria apenas mais uma.

Ela estava com um vestido amarelo-pálido um pouco otimista para a temperatura e foi muito bom revê-la depois de tanto tempo. Não me lembrava de ela ser tão calorosa ou mesmo empolgada com conversas e a vida. A sutileza exigida em um primeiro encontro foi elevada devido ao lugar e, principalmente, a hábitos ainda um tanto secretos para mim. Assim que fomos servidos, por exemplo, ela inesperadamente abaixou a cabeça e fez o que depois descobri ser uma breve oração, enquanto eu esperava disfarçando o espanto. Ainda bem que raciocinei antes de falar em um tom mais alto “você está bem?!”.

O mais surpreendente foi o fato de eu ter realmente me divertido com a presença dela, seu tom animado e curioso e o jeito tímido de me perguntar certas coisas. Nos despedimos com a possibilidade de um novo encontro na semana seguinte, em um final de tarde, “com mais tempo”, ela disse.

Tempo é tudo o que tenho e não sei oferecer.

Mais tarde, no mesmo dia, fui sozinho a um bar apoiar uns amigos com banda. Estava andando por lá e uma garota puxou meu braço sorrindo:

- Não vai me dar oi?

Após dois longos segundos, minha cabeça recebeu oxigênio o bastante e soube quem era. Filha de amigos de meus pais, ela agora tem faculdade, profissão e um cabelo ruivo-cereja. E simpatia de sobra. Tivemos uma conversa breve e prazerosa, eu fiquei feliz por revê-la e poderia dizer que o mesmo era válido para ela. Acabei convidado para uma festa dela em alguns dias.

Tenho tempo. Seria grosseiro não ir, certo?

Caminhando pelo mesmo bar, outra surpresa. Reconheci uma antiga colega de colégio, com quem conversava bastante e que perdi completamente o contato em um daqueles afastamentos que tem origem na troca de escolas antes da era de redes sociais. Sempre fomos parecidos em várias coisas e agora estamos em hiatos parecidos na vida. Ela usava um anel de resina azul na mão direita que me lembrava do nosso antigo uniforme. Acabamos conversando a maior parte da noite, rindo de erros antigos, vendo quem tinha menos notícias de nossos ex-colegas e comparando os possíveis planos para os próximos meses. Ao me despedir, ela disse “não suma hein! Sabe, foi realmente bom te reencontrar”.

Tempo é uma coisa estranha...

Estes três encontros ocorreram três meses atrás. Nada deu certo. Quem ganha primária não garante eleição.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Epifania do dia

Acabo de perceber que minha paixão platônica por Caroline Dhavernas (Jaye Tyler de "Wonderfalls") tem origem remota em minha paixão platônica de infância por Meredith Henderson, a protagonista de "As aventuras de Shirley Holmes" (1996) -  que por sua vez explica minha outra paixão platônica mais tarde por uma garota do meu colégio quando ambos comprávamos volumes de Sherlock Holmes na feira do livro. Impressionante como as três são tão parecidas.

Estamos condenados a nos repetir, mesmo que platonicamente.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Mamãe sabe tudo

Sábado de almoço em família, a televisão fica ligada para cobrir os possíveis silêncios. Começa uma daquelas propagandas de campanha anti-drogas, com depoimento de um pai:

"Minha filha tinha um grande futuro. Notas boas, promessas na faculdade, bons amigos... Mas daí ofereceram drogas pra ela... Más companhias, doente o tempo todo, sem emprego nenhum, vida vazia..."

Surge uma jovem saudável que se senta em seu colo.

"Ainda bem que não exprimentei né, pai?"

Não resisti diante da verdade:

- Urgh, estou igual a esse depoimento e nem exprimentei nenhuma droga.

- Pois é, devia pelo menos ter experimentado! Passe as batatas.

É o tipo de palavra de apoio que recebo da minha mãe.